O Hormogin 2026, realizado nos dias 3 e 4 de julho no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, reuniu especialistas para discutir os avanços mais recentes em terapia hormonal e saúde da mulher. Entre os temas debatidos estavam a duração do tratamento hormonal, novidades em adesivos de estradiol e os cuidados na escolha do método contraceptivo em quadros específicos, como o lipedema. A seguir, os principais destaques do congresso, traduzidos para o que muda na prática de quem já faz ou está considerando iniciar a terapia hormonal.
TRH não tem prazo máximo de uso, mas exige reavaliação constante
Um dos pontos mais reforçados no Hormogin 2026 é que a TRH (terapia de reposição hormonal, tratamento que repõe hormônios como estrogênio e progesterona para aliviar os sintomas da menopausa) não tem um tempo limite obrigatório para ser interrompida. A decisão de manter, ajustar ou suspender o tratamento é individualizada, reavaliando riscos e benefícios a cada consulta, e não seguindo um prazo fixo em calendário.
Isso não significa que o momento de início seja irrelevante. De acordo com as diretrizes da FEBRASGO sobre terapia de reposição hormonal no climatério e na menopausa, a chamada janela de oportunidade, os primeiros dez anos após o início da menopausa ou antes dos 60 anos, é o período em que os benefícios da TRH tendem a superar os riscos com mais clareza, inclusive do ponto de vista cardiovascular. Iniciar o tratamento fora dessa janela pode aumentar o risco cardiovascular, de tromboembolismo venoso e de acidente vascular cerebral, o que reforça por que o início do tratamento (diferente da sua continuidade) é o momento que exige mais cautela na avaliação individual.
Na prática, isso separa duas perguntas que costumam ser tratadas como uma só: quando começar a TRH e até quando manter a TRH. A primeira tem uma janela mais bem definida pelas diretrizes. A segunda não tem prazo fixo, e depende da resposta de cada paciente, dos sintomas presentes e da reavaliação periódica de risco e benefício.
Lenzetto® em falta temporária, com retorno previsto para 2027
Outro ponto de atenção discutido no congresso foi a falta temporária do Lenzetto®, spray transdérmico de estradiol usado por parte das pacientes em TRH. Segundo informado durante o Hormogin 2026, a previsão é de retorno regular às farmácias em janeiro de 2027. Para quem depende dessa apresentação específica, o caminho é conversar com o ginecologista sobre alternativas terapêuticas equivalentes disponíveis no mercado durante o período de desabastecimento, evitando a interrupção abrupta do tratamento.
Chegada do Systen® 100, adesivo de estradiol com dose mais alta
Também foi apresentada no Hormogin 2026 a expectativa de chegada, em setembro, do Systen® 100, adesivo de estradiol com dose mais alta do que as apresentações atualmente disponíveis. Na prática, essa novidade resolve um incômodo comum entre pacientes que precisam de doses elevadas de estradiol: hoje, esses casos costumam exigir o uso de dois adesivos simultâneos para atingir a dose necessária. Com uma apresentação de dose mais alta, a expectativa é reduzir essa necessidade, tornando o tratamento mais prático no dia a dia sem abrir mão da eficácia da reposição hormonal.
Lipedema e a escolha do anticoncepcional
Um dos temas mais técnicos discutidos no congresso foi a relação entre anticoncepcionais combinados (os que associam estrogênio e progestina) e o lipedema, condição que causa acúmulo de gordura de forma desproporcional, geralmente nas pernas, com dor e sensibilidade aumentada na região. O estrogênio presente nesses anticoncepcionais pode, em mulheres predispostas, favorecer o acúmulo de gordura e intensificar processos inflamatórios já presentes no lipedema.
Um estudo publicado na Cureus, indexado no PubMed Central, entrevistou 637 mulheres brasileiras com lipedema suspeito ou confirmado e encontrou que 58,8% relataram piora dos sintomas depois de iniciar o uso de anticoncepcional hormonal, contra apenas 0,9% que relataram melhora. Os autores descrevem os hormônios exógenos como moduladores que amplificam uma inflamação já existente, não como causa direta do lipedema, e recomendam aconselhamento individualizado, com alternativas não hormonais quando apropriado. É exatamente essa a mensagem central discutida no Hormogin 2026: a escolha do método contraceptivo em pacientes com lipedema precisa ser individualizada, considerando o quadro clínico específico de cada uma, e não uma regra genérica aplicada a todas.
Levonorgestrel e composição corporal, o que o Hormogin 2026 discutiu
Outro ponto levantado no congresso foi o potencial efeito mais androgênico do levonorgestrel (uma progestina usada em diversos métodos contraceptivos) em comparação com outras progestinas disponíveis, o que pode influenciar aspectos da composição corporal em algumas mulheres. É importante deixar claro que essa não é uma indicação para uso do método com finalidade estética ou de ganho de massa muscular. O levonorgestrel continua sendo, antes de tudo, um método contraceptivo, e a resposta a esse possível efeito varia bastante de mulher para mulher, sem garantia de resultado.
O que essas novidades mudam na prática?
Reunindo os pontos discutidos no Hormogin 2026, alguns direcionamentos práticos ficam mais claros para quem já faz terapia hormonal ou está avaliando iniciar:
– Já faz TRH há vários anos e não sabe se deve parar? Não existe uma data de validade automática. O que existe é a necessidade de revisar, em cada retorno, se os benefícios ainda superam os riscos considerando idade, histórico de saúde e sintomas atuais
– Usa Lenzetto® e está sem encontrar nas farmácias? O desabastecimento é temporário, com retorno previsto para janeiro de 2027. Até lá, vale conversar com o ginecologista sobre uma apresentação alternativa de estradiol, em vez de interromper o tratamento por conta própria
– Precisa de dose mais alta de estradiol e hoje usa dois adesivos? O Systen® 100, esperado para setembro, é uma alternativa a acompanhar, mas a troca de esquema terapêutico deve ser sempre validada em consulta, não decidida por conta própria
– Tem diagnóstico de lipedema e usa ou pensa em usar anticoncepcional combinado? Vale relatar ao médico qualquer piora de inchaço ou dor nas pernas após o início do método, para que a escolha do contraceptivo leve esse histórico em conta
– Usa ou considera um método com levonorgestrel esperando efeito na composição corporal? Esse não é o objetivo do método, e a resposta a esse possível efeito varia muito entre mulheres, o que reforça que a eficácia contraceptiva deve seguir sendo o critério principal de escolha
Nenhum desses pontos substitui a avaliação individual em consulta. Eles servem para chegar ao consultório com as perguntas certas, entendendo que cada novidade apresentada em um congresso como o Hormogin 2026 tem uma aplicação prática diferente conforme o momento de vida e o histórico de cada paciente.
Por que atualizações como essa importam na prática?
A terapia hormonal é uma área que muda com uma velocidade que a maioria das pacientes não acompanha de perto, e é justamente aí que entram eventos como o Hormogin 2026, atualizações direcionadas a especialistas que discutem dados recentes antes de virarem consenso amplo. Isso vale tanto para questões de segurança e prazo de uso quanto para novidades de apresentação de medicamentos, que parecem um detalhe técnico, mas na prática mudam a rotina de quem faz o tratamento.
Se você faz TRH ou está avaliando iniciar o tratamento, o ponto mais importante deste texto não é nenhuma novidade isolada, é a reavaliação periódica com o ginecologista. Leve essas informações para a próxima consulta e pergunte especificamente como elas se aplicam ao seu caso, considerando sua fase de vida, seus sintomas e seu histórico clínico.
Este tema se conecta com outros dois já publicados aqui no blog, Mudanças Hormonais aos 40: O que Acontece com o Corpo e Menopausa silenciosa e os sintomas que aparecem aos poucos, que ajudam a entender melhor os sinais que costumam anteceder essa fase e o momento certo de avaliar a terapia hormonal.



